O Réveillon organizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro passou a ser apurado pelo Ministério Público Federal (MPF), que abriu um inquérito civil para verificar se houve discriminação religiosa na programação da virada. O caso envolve críticas de representantes de religiões de matriz africana e manifestações públicas do prefeito Eduardo Paes (PSD) e do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec).
A apuração foi instaurada após reclamações de adeptos de religiões de matriz africana de que as atrações na Praia do Leme, na Zona Sul do Rio, estariam concentradas em conteúdos voltados ao público gospel, em prejuízo de outras expressões religiosas. O procurador Jaime Mitropoulos formalizou a investigação ao transformar um procedimento preparatório em inquérito e solicitou esclarecimentos ao município sobre os critérios de escolha dos artistas e a destinação de recursos públicos nos eventos de fim de ano.
A discussão ganhou visibilidade após declarações do babalaô Ivanir dos Santos, em entrevista à coluna de Ancelmo Gois, do jornal O Globo: “A diversidade não pode ser apenas um discurso: ela exige práticas concretas de reconhecimento, representação e igualdade no uso do espaço público”, disse Ivanir.
No domingo (28), Eduardo Paes respondeu às críticas pelas redes sociais e afirmou ver preconceito nas reclamações. O prefeito defendeu a presença de atrações gospel e declarou que o Réveillon de Copacabana é plural, com espaço para diferentes estilos e manifestações culturais e religiosas. “É impressionante o nível de preconceito dessa gente. O Réveillon da praia de Copacabana é de todos! A música gospel também pode ter seu lugar. Assim como o samba, o rock, o piseiro, o frevo, a música baiana, a MPB, a bossa nova…. Cada um que fique no ritmo que mais curte! O povo cristão também tem direito a celebrar! Amém! Axé! Shalom! Namaste”, declarou.
Na segunda-feira (29), o pastor Silas Malafaia também comentou o tema em publicação na plataforma X. Ele afirmou que oferendas e cantores vinculados a religiões de matriz africana têm “protagonismo” em festas de virada em praias do Brasil e disse que as declarações de Ivanir refletem “preconceito religioso”. “Você está reclamando de um palco gospel na virada do ano na Praia de Copacabana. Vou refrescar sua memória. Toda a orla, não só de Copacabana, mas de todas as praias, são tomadas para oferendas de cultos de matriz africana. Nos palcos principais, cantores vinculados a essas religiões têm o protagonismo. Você está mostrando o seu preconceito religioso. Quer aparecer? Pendura uma jaca ou melancia no pescoço!”, escreveu.
No inquérito, o MPF estabeleceu o prazo de 21 de janeiro de 2026 para que a prefeitura apresente informações detalhadas. A data coincide com o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Para o mesmo dia, está prevista uma reunião entre representantes do município e entidades como o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-RJ.
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